CARTA ABERTA AOS PROFESSORES DO IA

Prezados Professores:

Estão abertas até amanhã, 14 de agosto, as inscrições da eleição para Diretor do IA, e, como uma das partes mais interessadas, esperamos apreensivos para saber quem irá se propor a encarar o desafio.
Nos causa estranheza a sensação que percorre os corredores do IA: a de que ninguém quer “assumir o abacaxi”, a de que o cargo de Diretor de nosso Instituto é um peso tão grande que ninguém quer aceitá-lo. Sabemos das dificuldades, sabemos da falta de estrutura, sabemos da falta de orçamento: sofremos todas essas carências na sala de aula. Mas também sabemos que uma instituição pública de ensino de artes está fadada a ser sempre uma estranha equação entre uma miríade de sonhos e a crua realidade da gestão pública.
Em meio a essa incerteza, lançamos esta “carta aberta” para dizer o que nós esperamos de uma nova direção. A Direção que haverá de celebrar os 100 anos do IA. A Direção que haverá de nortear esta instituição em pleno século XXI.
Lemos no Jornal “ A Federação”, de 29 de abril de 1936, quando o Instituto das Belas Artes foi incorporado à Universidade Federal, que já há 70 anos atrás, o desafio sempre foi o de fazer com que nosso Instituto se comportasse como um organismo vivo, capaz de agir com garra e vigor e superar o simples andar burocrático. Como o próprio editorial diz, a questão não é culpar nem criticar ninguém. A atual gestão deixará como herança uma serie de conquistas a ser preservada, mas é fundamental reconhecer que a realidade não é a mais propícia para
Para mudar essa realidade, queremos destacar os principais requisitos que, pretendemos, cumpra o próximo Diretor de nosso IA.
Em primeiro lugar, nós queremos que os canais de participação dos estudantes sejam mantidos, aprofundados e priorizados.
Mantidos, porque já são partes da regulamentação que norteia nosso Instituto, e garantem legalmente a participação discente. Mas, fundamentalmente, mantidos porque a razão de ser de uma instituição de ensino não são suas paredes, seus equipamentos, seus professores ou sua direção: são seus estudantes. Se a co-gestão institucional é uma das heranças das lutas estudantis que nortearam o século XX, temos de ter claro que esta divisão da gestão entre administradores e usuários de um serviço público (o ensino superior é um serviço público!) a partir da Constituição cidadã de 1988 é um princípio básico.
Aprofundados, porque muitas vezes estes espaços apenas são pró-forma, existem no papel mas não há uma preocupação real para que sejam preenchidos; ou quando o são, é de forma personalizada, sem a característica de uma responsabilidade representativa, que deve estar em permanente contato com quem a mandatou, que são os próprios estudantes.
Cremos que o aprofundamento dos canais de participação dos estudantes é fundamental para que exista uma paridade maior entre a opinião daqueles que, em definitivo, são a razão de ser desta Instituição: os estudantes-cidadãos, os estudantes que não querem mais ser tratados como “crianças” nem como simples aprendizes de artistas.
Priorizados, porque pensamos que essa experiência de co-gestão institucional é muito mais do que uma simples questão de legalidade.
A participação discente é a verdadeira escola de cidadania ativa e participativa dos estudantes, é através dela que os acadêmicos aprenderão a se organizar como categoria, aprenderão sobre as dificuldades da gestão e aprenderão a defender seus interesses. O futuro das artes não depende da boa vontade dos governantes: depende da organização daqueles que fazem das artes seu dia a dia. Se já é tradição nossa desorganização como categoria, esse é um grande desafio que a Universidade deve ajudar a superar, não através de palestras, seminários ou textos maravilhosos, e sim partir da participação discente como uma prática obrigatória.
Em segundo lugar, nós queremos que o próximo Diretor do IA seja uma pessoa que assuma o desafio de fazer com que nossa centenária Instituição se revigore e saia deste quase anonimato a que hoje está confinada.
Pensamos que o vigor do IA deverá se iniciar pela atitude de nossos professores. Há de se melhorar a qualidade de nosso ensino e repensar os métodos pedagógicos. Hão de se ampliar as súmulas. Deve se levar em consideração com muita seriedade a avaliação discente. Devem ter mais importância e prioridade às cadeiras práticas, e nelas superar o experimentalismo tão importante nas décadas passadas, para se priorizar o ensino de técnicas. Ninguém pode livremente criar se não possui conhecimento técnico. Por outro lado, queremos uma sintonia entre o que nossos docentes pretendem ensinar e a realidade e propostas de cada estudante.
Pensamos que também o IA deve ter uma proposta mais específica para os funcionários, esses trabalhadores abnegados que muitas vezes devem resolver inúmeros problemas, que sempre procuram o melhor caminho para que o Instituto funcione e que sempre estão dispostos a dar sua contribuição e sua opinião. Eles são fundamentais para a revigoração de nosso Instituto.
Sabemos que dentro do circuito oficial de artes somos uma excelente referência. Mas pensamos que isso é pouco, que isso não é suficiente para que o IA possa cumprir com a missão de ser uma entidade reconhecida e querida por toda a sociedade.
Queremos que o próximo Diretor incentive uma política de extensão para fora do IA, para fora do sistema oficial de artes, profundamente direcionada à sociedade, fora dos muros da Universidade, fora do eixo centralizador da capital.
Em tempos de patrocínios e de incentivos fiscais, queremos que nosso Instituto mantenha um vínculo estreito, um caminho de duas mãos, com aquele que é seu principal patrocinador: o povo gaúcho. Afinal, todos e cada um dos contribuintes de nosso estado colaboram com seus impostos para manter o ensino superior público que, desde este ponto de vista, não é gratuito. E a maioria destes nossos “patrocinadores’’ não visitam nunca um museu, uma galeria de arte ou uma bienal. Então, é nosso dever de patrocinados o de criar propostas que garantam o livre acesso às artes de toda a comunidade.
Em terceiro lugar, queremos que o próximo Diretor assuma como questão de vida ou morte a necessidade de celebrar o centenário do IA no prédio do ICBS.
Não é possível aceitar mais as péssimas condições das salas, as faltas de equipamentos ou de professores, de verbas ou de apoios reais. Não é possível conjugar o ensino de artes com um pessimismo derrotista, que acata esta realidade como fatal.
A arte precisa da esperança e da capacidade de sonhar para existir, e o IA deve ser um exemplo disso.
Nós temos assumido esse desafio desde o ano passado, quando procuramos o Reitor, quando lhe enviamos um “cartão de final de ano’’, quando realizamos um evento em março deste ano já no ICBS, quando, a cada ocasião que se nos apresenta, reivindicamos este novo espaço, quando fizemos que o Congresso de Estudantes da UFRGS assumisse como parte de suas reivindicações esta proposta e quando hoje, por exemplo, nos unimos aos estudantes da FABICO, da ESEF e do Direito, para entregar uma pauta de reivindicações ao Reitor.
Queremos que o próximo Diretor seja incisivo nesta questão, e isso não se trata apenas de seguir os caminhos burocráticos: teremos de realizar uma ampla mobilização, envolvendo a comunidade cultural, a comunidade artística, os egressos do IA, os estudantes, os professores, os funcionários. Nada se consegue sem luta nem mobilização real e visível, como a realizada hoje na própria reitoria.
Como podem ver, não é muito o que queremos do próximo Diretor de nosso Instituto.
Mas a aquele que se comprometer com estes três grandes eixos de ação lhe prometemos todo nosso apoio. Que, humildemente, pensamos que não é pouco. Que já não é mais desorganizado ou voluntarioso. Não nos consideramos “alunos” e sim estudantes: não somos pessoas “sem luz própria” e sim pessoas que estão dispostas a aprender.
Somos uma geração de estudantes repleta de pessoas com as mais diversas trajetórias, que acreditam na arte, mas cremos fundamentalmente na nossa própria organização. Somos daqueles que não têm medos de desafios e estamos juntos, os que têm mais experiências de vida com aqueles que estão na plena efervescência da sua juventude. Não cremos na centralização ou na comodidade da simples representatividade; apostamos na multiplicação de instâncias organizativas e de lideranças, bem como praticamos e defendemos a democracia participativa.
Esperamos que algum de vocês aceite este convite e assuma o leme desta nau.
Que os ventos do século XXI possam ser os que definitivamente nos façam aportar a um bom porto, no qual possamos nos carregar de novos desafios, de novos mapas e de novos caminhos a trilhar.
Porto Alegre, 13 de setembro de 2006.


Alejandro Ruiz
Presidente

Um comentário:

Antonio Carlos Paim disse...

Parabéns Alejandro e todos os colegas que fazem parte desse nosso aguerrido diretório! Concordo plenamente com a postura de nossos representantes (discente) e desejo que "nosso futuro Guia" na Direção do Instituto seja bem sucedido em sua atuação frente à tão digna instituição de ensino e produção de arte. Essa que está às portas de completar seu centésimo aniversário e que pode e deve ter luz própria no concerto de todos os Institutos dessa Universidade.
Todos estamos de parabéns pela postura idealista e ao mesmo tempo prática... vamos sonhar e também construir mas também amar e lutar por um lugar, que de direito nos pertence por estarmos vinculados a essa prestiguiosa Universidade!
Sucesso a todos nós!